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7 de janeiro de 2015

O homem na sarjeta

mendigo e cachorro

Um cachorro sujo e com o pelo todo enrolado está sempre ao lado dele. Os dois passam os dias ali, na sarjeta. Quando chove, vão para debaixo de uma marquise e se acomodam em pedaços de papelão. Às vezes algum passante joga uma moeda. Ele pega e não agradece. Esqueceu-se das palavras. Há meses não sabe o que é tomar banho e a sujeira já lhe grudou na pele, como tatuagem. Olha para o nada. É uma figura triste, e não é nada agradável vê-lo assim, miserável e envelhecido. As pessoas passam ao largo, como se desviassem de um monte de lixo jogado na calçada. Quase ninguém olha para ele. Nos dias de frio, entra num boteco qualquer e toma uma dose de cachaça. Não fala com ninguém. Volta em seguida para seus pertences espalhados na calçada, senta-se ao lado do cão e espera que as horas escorram inexoráveis diante de seus olhos.

Todas as manhãs, a caminho da escola, mamãe e eu passamos por ele. Percebo que seus olhos se encontram por um segundo. Mamãe aperta minha mão e apressa o passo, enquanto sussurra em meu ouvido: “Não olhe. Há muito tempo ele já deixou de ser seu pai.”.

 




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7 de janeiro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cão, homem, pai, sarjeta

               
              
            
                

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