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17 de setembro de 2019

O homem que tinha uma sereia

Tenho uma sereia — assim disse o professor. Parecia mesmo um professor: usava óculos, tinha inúmeras canetas no bolso da camisa e estava com uma pilha de livros sobre a mesa em que tomava cerveja. Ninguém deu importância ao que ele disse. Naquele boteco de frente para o mar as pessoas só queriam beber, não ouvir coisas absurdas como alguém que dizia ter uma sereia.

Sua voz é mais doce que o som do tombar das ondas sobre a areia e seus olhos têm o brilho do relâmpago, as mãos são macias como a espuma branca e os cabelos… ah, os cabelos! — o professor interrompeu o discurso como se lhe faltassem as palavras certas.

São compridos e verdes como as ondas do oceano numa noite de verão — completou o marinheiro chamado Cabeça, com a barriga encostada no balcão. Diziam que tinha “cabeça” porque costumava declamar poesia.

Nada disso — respondeu o professor, depois de um longo gole de cerveja. São curtos e dourados como um raio de sol. À noite brilham. Tão curtos que os fabulosos ombros ficam à mostra e é possível contar as vértebras daquela coluna ereta, perfeita.

Eu não duvido — prosseguiu o marinheiro, sentando-se à mesa. E também os peitos grandes e pontudos, com os bicos voltados para o céu. E calou-se, olhando fundo nos olhos do professor, que não gostou de ouvir os encantos de sua sereia sendo descritos em público.

Os dois ficaram em silêncio por minutos, apenas bebendo e estalando a língua a cada gole, até que o marinheiro, enquanto enchia novamente o copo, decidiu exibir sua erudição. De tudo, ao meu amor serei atento antes… Isso é poesia. Sua sereia gosta de poesia? De música sei que sim, as sereias são famosas por seu canto. Que canções ela canta?

Ela não canta, mas conversa. Conversamos muito, minha sereia e eu — o olhar do professor ficou preso no mar à frente, que agora se punha violeta.

É lindo esse mar, é lindo o tom lilás a essa hora— o marinheiro acompanhou o olhar do professor.

É o mar mais bonito do mundo. Por ali estará ela, em algum ponto no meio dessa água infinita — o professor parecia sonhar.

Tenha sempre cuidado. Não é difícil se perder — advertiu o marinheiro.

Eu me perderia nos braços dela com a maior alegria deste mundo — o professor baixou os olhos, como se estivesse num confessionário.

Conte, meu amigo. Já provou de verdade? Já sentiu o gosto? Como são as carícias? Dão medo? Arrepios? Vertigens? Conte! — a curiosidade do marinheiro parecia sincera.

O professor terminou sua cerveja, recolheu os livros e olhou para o marinheiro: Nada direi, porque as palavras… Não há palavras. Não suficientes. Ficou em pé contra a luz do entardecer e saiu do bar sem pagar a conta.

 




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17 de setembro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos marinheiro, professor, sereia

               
              
            
                

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