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7 de julho de 2015

O horror, o horror!

desertoÀquela hora da tarde o museu estava deserto e ele então pôde passear sossegadamente pelos corredores, apreciando com vagar as obras, muitas das quais só conhecia dos livros. Parou diante de um quadro que o intrigou. Deu dois passos adiante para observar melhor a pintura. Afastou-se um pouco, voltou a se aproximar: parecia uma fotografia! Ficou fascinado pela forma realista e ao mesmo tempo quase abstrata com que o artista captou a paisagem. Admirou o sóbrio jogo de luzes e sombras entre as dunas, a cor dourada da areia. De repente notou uma pequena mancha na parte inferior da tela. Olhou para os dois lados do corredor e percebeu que o local continuava deserto. Fixou os olhos novamente na mancha do quadro. Passou levemente a mão sobre a tela e comprovou que aquela mancha não fazia parte da obra. Tem relevo, pensou, algo que se depositou ali, talvez um acúmulo de poeira. Raspou a unha do dedo mindinho e tirou da tela aquele pequeno e estranho ponto negro. Distanciou-se dois passos atrás e olhou novamente a pintura. Sentiu-se satisfeito por ter contribuído para livrar a obra daquele pequeno inconveniente.

Retomou o prazer estético da contemplação até que um som, a princípio inaudível, mais nítido depois, chamou sua atenção. Identificou, apavorado, de onde ele vinha: da tela que havia longos minutos admirava. Era o sussurro da areia escapando por um orifício onde antes havia o ponto negro. Um montinho de alguns centímetros de areia já estava acumulado no chão, sob o quadro. Um montinho de areia que crescia sem parar. Olhou para os lados e constatou que o corredor permanecia deserto. Sem saber o que fazer, caminhou apressado pelo corredor sem olhar para trás e deixou o museu.

Quando abriu a janela de seu quarto, no dia seguinte, ele sufocou um grito de horror ao olhar para fora: a areia tinha tomado conta de toda a cidade, encobrindo casas, árvores, parques e edifícios até o terceiro andar. E não parava de subir, não parava! Sexto, eu vivo no sexto andar!, disse para si mesmo, enquanto procurava desesperadamente esquecer a pintura que vira no dia anterior.

 




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7 de julho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos areia, deserto, horror

               
              
            
                

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