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27 de julho de 2017

O impulso que faltava

Há dias tenho a cabeça vazia como um salão de baile depois que a orquestra vai embora. As palavras entram por um ouvido, dão voltas no espaço insondável do meu crânio e fogem, serelepes, pelo outro. Não consigo retê-las e isso me aflige, já que ganho a vida como escritor. Resolvo procurar um especialista. O doutor Ananias saberá me salvar.

É enorme o consultório do doutor. Sou recebido pela secretária, uma elegante garça de plumagem lilás e bico avermelhado, que me leva até a sala de atendimento. Lá, jogada num dos sofás, uma sereia ruiva com eletrodos na cabeça e o rosto coberto por uma lama verde, lambe um picolé. Ela sorri e eu sorrio de volta. Em poucos minutos chega o doutor Ananias, barba e cabelos azuis e a indefectível voz de baixo profundo. Vou com ele até uma sala menor.

Conto a ele sobre o incômodo que o vazio em minha cabeça vem me causando. Ele olha para mim, segura meu rosto e o vira de um lado e de outro. Examina minhas orelhas e diz ahã, ahã. Em seguida sai da sala e volta com um potinho de cera. Tente isso, diz ele, vai dar certo.

Preparo-me para deixar o consultório. Antes, dou uma última olhada para a sereia ruiva, ainda ocupada com o picolé. Digo adeus e ganho a rua.

Em casa, coloco a cera num dos ouvidos. As palavras entram pelo outro, dão voltas em minha cabeça e não saem. Começam a lotar meu crânio e, sem espaço suficiente para todas, descem por meu braço e chegam aos meus dedos. Eu as escrevo.

 




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