Close

13 de fevereiro de 2017

O inimigo número um

Por mais que tentassem, não conseguiam acabar com ele. Astuto, evitava armadilhas e emboscadas e desaparecia, reaparecendo pouco tempo depois, colosso impávido. Respondia ao sangue com mais sangue. Para cada homem seu que caísse, matava dez funcionários públicos e oito policiais. A cada quadro sequestrado em suas fileiras, realizava sequestro semelhante no campo inimigo. Era indestrutível. As canções populares enalteciam seus feitos e sua crueldade. Fizeram filmes, novelas e minisséries sobre sua vida. A literatura nacional chegou ao apogeu contando suas histórias, e nunca se vendeu tanto livro. As grávidas prometiam dar seu nome ao filho. Virou motivo de adoração. Em pouco tempo se tornaria santo.

Depois de anos sem conseguirem capturá-lo, os assessores do presidente se reuniram em caráter de urgência urgentíssima. A desfaçatez do homem tinha se tornado um escárnio e era necessário encontrar uma solução definitiva para o problema o quanto antes. A situação já se prolongava além do aceitável. Muito se discutiu, de forma acalorada, antes de chegarem ao consenso: chamar a imprensa e noticiar a morte do inimigo número um do governo numa emboscada. As televisões deram detalhes e todo o povo comentou. Durante dias não houve outro assunto nos mercados, nas praças, nos botecos, nas escolas e nos salões de cabeleireiro. Muita gente chorou. Fizeram protestos, passeatas, discursos inflamados. Prantearam um defunto sem a presença do corpo. O presidente não deu ouvidos e ponderou: se acreditarem que ele está morto, então estará morto de fato.

Esqueceu-se o presidente da sagacidade do homem. Quando ele reapareceu, até as forças policiais fugiram, espavoridas. Agora é pior, gritavam. Ele ressuscitou!

 




Tags:, , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário