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30 de maio de 2016

O instante mágico

família3Como em todos os domingos, ali estava a cena familiar perfeita. Minha avó não perdia o brilho travesso dos olhos. Atenta a tudo, parecia se divertir. Meus tios e meus pais quase morriam de tanto gargalhar, por qualquer motivo ou até mesmo sem ele. Meus primos pequenos brincavam no chão, os maiores fingiam que eram adutos e conversavam sobre política. Era bonito ver três gerações em harmonia — três e meia, porque Amelita sorria como Monalisa acariciando a barriga que aumentava a cada domingo. A luz filtrada pelas cortinas brancas da sala tornava a cena mágica. Isso merece uma foto, pensei, e saí correndo pra pegar a câmera.

Quando voltei, percebi que minha avó estava com cara de preocupação e o olhar perdido na direção da porta de entrada. Meus tios discutiam e minha mãe tentava acalmar os ânimos. Meus primos pequenos pararam de brincar e estavam assustados com o barulho da discussão; os maiores, com cara de paisagem, encerraram a conversa e mergulharam os olhos nos celulares. E Amelita não sabia o que fazer para disfarçar as lágrimas, as mãos sobre a barriga que subia e descia no ritmo dos soluços.

O céu lá fora tinha escurecido e a luz já não passava mais pelas cortinas brancas. Suspirei, conformado. O instante mágico tinha ido embora, seguramente pela porta para a qual minha avó olhava tão fixamente.

 

 




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