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28 de fevereiro de 2017

O lado ruim

Você poderá ir caminhando pela estrada que tem sombra até a parte alta da cidade. Ninguém lhe dirá É proibido passar. Siga em frente e logo encontrará a casa com a cerca pintada de branco e rodeada de flores silvestres que tanto lhe enchia os olhos de desejo e cobiça quando você era criança. Nenhum guarda impedirá que se aproxime da casa, que pise o gramado cuidadosamente aparado e que chegue até a porta de entrada, de madeira maciça e entalhada. Empurre-a e entre, não é necessário que alguém anuncie a sua chegada.

Passeie pelos cômodos largos e decorados. Visite a sala, os quartos, os banheiros, a cozinha ampla e repleta de utensílios. Entre na biblioteca e se encante pelo que lá existe. Livros, todos os livros do mundo estão nas estantes ricamente iluminadas que adornam todas as paredes. Você, querendo, poderá levar muitos deles para casa sem que alguém o impeça. Ninguém chamará a polícia para denunciar o seu passeio invasivo pela casa, nem mesmo quando você abrir os armários e fuçar nas roupas penduradas ou revirar as gavetas perfumadas. Nem mesmo quando pular como criança sobre as camas e sofás e poltronas que existem aos montes nos inúmeros quartos da propriedade, enfeitados com espelhos e obras de arte. Ninguém vai incomodá-lo por isso.

Se quiser, abra todas as cartas que estão depositadas sobre o tampo da escrivaninha. Algumas podem ser de amor, dirigidas a alguém que não poderá lê-las — mas você pode. Nenhum mordomo chamará sua atenção por abrir todas as garrafas importadas de vinho da adega e tomar apenas um gole no gargalo de cada uma, sentado na varanda de frente para o mar. Faça isso, se lhe der vontade.

Enquanto experimenta os vinhos, você poderá esperar que a mulher mais bonita da cidade, que uma mulher, que alguém, enfim, apareça para lhe fazer companhia e depois vá consigo ao teatro onde ninguém lhe exigirá ingresso nem lhe impedirá de pisar no palco vazio e escuro. Esse é um dos lados ruins — você logo perceberá — de ser o único sobrevivente.

 




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