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22 de agosto de 2019

O lírio da paz

O criminoso confinado na cela, atrás das barras e fechado com centenas de cadeados, isolado por mil muros sólidos, numa ilha remota e vagabunda, a quilômetros de distância da humanidade, rega com dedicação um lírio da paz. Deram-lhe de presente um vaso com a planta que, há meses, é sua única companhia. Conversa com ela para não se esquecer das palavras. Forma frases e atribui-lhes um sentido. Não pensa em cantar, a melodia não lhe enche à garganta nem tem noção de harmonia. Não sabe juntar um Dó a um Mi e extrair disso um pouco de beleza. E música não combina com jaula. Prefere o silêncio. E que envergadura tem o silêncio ao chegar e se estabelecer para além do corpo e do espaço!

E o silêncio se torna mais dilacerante quando, de muito longe, vem o eco das notícias sobre extermínios, chacinas, roubos em massa, homicídios, estupros, mulheres violadas e assassinadas.

O lírio da paz bebe a água que o criminoso lhe dá.

 




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22 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos criminoso, ilha, lírio da paz, silêncio

               
              
            
                

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