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3 de outubro de 2018

O magro, o gordo e o miúdo

Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando ouviam vozes e gritos vindos do pátio e em seguida o barulho dos tiros. Quando o silêncio voltava, eles voltavam às cartas.

Passou o tempo e a rotina da espera da morte entrou nos ossos dos três como uma febre que os deixava inquietos. Os nervos gritavam, mas nunca chegaram às agressões físicas. Não seria bom para nenhum deles. Sossegavam depois de uns minutos e logo cada um ia para um canto. O gordo às vezes lambia o reboco da parede em busca de outro sabor que não o da comida rançosa que serviam ou da saliva grossa de tabaco. O miúdo estacionava os olhos no muro alto na frente da janela; tinha ouvido falar que um tal Leonardo da Vinci fazia isso quando precisava de inspiração: olhar para um ponto e deixar os olhos esquecidos lá até… O magro escrevia uma novela; não num papel, que isso não tinha na cela, nem lápis ou caneta ou giz: escrevia na mente. Construía as frases com cuidado, corrigia, lia os parágrafos em voz alta, comentava o enredo com os companheiros, corrigia de novo. A novela progrediu junto com os dias e as horas e chegou a quase trezentas páginas, duzentas e oitenta e nove em conta certa, com espaço dois entre as linhas e fonte Times New Roman. Bem memorizada, uma noite o magro a leu de uma só vez para os companheiros.

Mas que inferno se torna a vida quando a espera brinca com a exasperação! O magro, o mais sensato deles, propõe que os três leiam o livro que escreveu. Foi tanta leitura, com disciplina, que o gordo conseguiu memorizar todas as páginas. Fez correções e sugeriu alterações no rumo do enredo. O autor acatou e corrigiu o original. E teve uma ideia: se algum deles se salvasse da morte, deveria publicar a novela em papel. Os três concordavam que aquela era a melhor história que já tinham lido na vida, e o mundo merecia saber disso. A novela ficou ainda melhor com as leituras e correções seguintes, até o ponto em que, quando vieram buscá-los para a execução, nenhum deles duvidava de que se tratava de uma obra-prima.

O primeiro foi o magro, e era um dia de sol quente; bastou um tiro. Depois foi a vez do gordo, e naquele dia chovia; foram necessários dois tiros porque o corpo dele era grande e a gordura, espessa. O miúdo e de pouco espírito foi indultado. Saiu da prisão e foi para casa, onde ninguém o esperava. Não se lembrou da novela que o magro tinha escrito. Sua memória, tão rachada quanto o muro em que costumava deitar os olhos, foi incapaz de reter todas as palavras, todos os parágrafos, todos os capítulos da história, não se lembrava nem sequer do fio do enredo. Mas afirmava, para quem quisesse ouvir, que era uma obra-prima, a melhor novela que alguém já tinha escrito. E assim repete até hoje, trinta anos depois do tempo em que dividiu a cela com o magro de olhos pequenos e negros e com o gordo de corpo nervoso.

 




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3 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos gordo, história, magro, miúdo, novela

               
              
            
                

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