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2 de agosto de 2017

O mapa em que habito

Continuam chegando estrangeiros a este mapa em que habito. Em grupos, como condenados, caminham pelas sarjetas, esgueirando-se pelos muros, desorientados, mortos de fome e de medo. Saíram de sua terra natal, trouxas nas mãos, e ganharam estradas, vales e montanhas. Não viajaram de férias: estão em busca de um fiapo de sobrevivência em algum canto do mundo. No meu mapa em que habito, andam pela linha de tinta vermelha que os homens da segurança lhes indicam. Empurram-nos com varas, como se empurra gado, não saiam da linha!, gritam a eles numa linguagem que não decifram mas compreendem.

Há tantas linhas no mapa em que habito, e são tantas as cabeças e olhos cheios de espanto, que é inevitável que se mirem e se reconheçam como iguais, mesmo vindos de lugares diferentes. São semelhantes no silêncio e na miséria.

Eu tento escapar desse formigueiro humano. Me agacho e cravo as unhas no asfalto de papelão. Jogo fora pedaços enormes de papel e consigo abrir um grande buraco. Os estrangeiros, ignorando a ordem de não saírem da fila, aglomeram-se em volta de mim. Os homens da segurança se aproximam, varas nas mãos. Entro no buraco e olho para cima, para as centenas de rostos desconhecidos e incrédulos. Faço sinal para que me acompanhem, mas eles fazem não com a cabeça. Abaixo de mim, lá no fundo, há uma réstia de luz. Mergulho com determinação. No outro lado, há uma outra cidade, outro mapa. No mapa dessa nova cidade, estrangeiros obedecem à ordem de andarem nas linhas de tinta vermelha.

 




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2 de agosto de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cidade, estrangeiros, mapa

               
              
            
                

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