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18 de agosto de 2016

O menino e o mar

menino e mar— Esse menino tem o mar na cabeça — pensava o pai ao ver Santiago brincando no milharal com o barquinho de papel. O vento fazia dançar as folhas da plantação como imensas ondas verdes, um oceano revolto sobre o qual flutuava solitária a pequena embarcação. Santiago ainda não conhecia o mar, mas sabia que ele o esperava. Vê-lo pela primeira vez, alguns anos depois, foi a confirmação de um destino anunciado: aquele horizonte, onde se fundiam ar e sal e onde apenas a vista, as gaivotas e as outras aves do céu alcançavam, era o cenário perfeito para embalar sonhos e o desejo de Santiago de buscar a vida — ou o sentido dela.

Ninguém sabe dizer se foi o pai, o velho companheiro vento, as ondas verdes do milharal ou o barquinho de papel — um deles, é certo, levou Santiago a viver no litoral. Construiu com as próprias mãos um barco de madeira, teceu as velas com as fibras mais resistentes que encontrou e cuidou dos equipamentos necessários. Arrastou a embarcação até a beira do mar e esperou. Seus pés descalços se misturaram com a água salgada e ali ele ficou. Devia aguardar que o oceano o aceitasse e que a maré subisse para recebê-lo. O mar tem seu próprio tempo, pensou, suas manias e seu jeito de ser. Um peixe nasceu para ser peixe, o mar, para ser mar. E eu tenho apenas que esperar e sentir quando for a hora, não antes. A noite chegou e ele adormeceu na areia.

Na manhã seguinte, Santiago caminhou pela praia sem pressa. Olhava as ondas e ainda ansiava pelo convite que a qualquer momento chegaria. Contam que, quando finalmente fez-se a hora, o barco de Santiago já estava velho e coberto de algas de todas as cores. Ele também já tinha virado um ancião, de barba branca e olhos opacos. Sua vista já não alcançava o horizonte. Lá, somente as gaivotas e as outras aves do céu ousavam chegar. Mas ele, em pensamento, já tinha singrado as águas profundas desse mar estendido à sua frente. Nem precisou fazer muito esforço: apenas sentou-se na embarcação e se deixou levar pela maré e pelo vento, o companheiro de sempre. Atendendo aos reclamos de sua própria natureza, iniciou a jornada na direção do horizonte, do sentido da vida e dele mesmo, pela primeira e última vez.

 




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