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18 de abril de 2019

O menorzinho

— Quem foi que comeu o Menino Jesus?

A mãe estava com aquela cara e aquela voz que todos ali dentro já conheciam. O pai olhou na direção do menino e o menino abaixou a cabeça. O menorzinho ficou de cócoras e fingiu que desenhava com o dedo no chão de terra. Sentiu o olhar de todos em sua cabeça e começou a cantar Se essa rua, se essa rua fosse minha… Tentou se esconder em baixo da mesa, mas uma ratazana passou correndo e ele se assustou.

— Ah, meu Deus, agora é que vai faltar tudo. Sem o Menino Jesus seremos todos castigados.

O menino tentou imaginar o tudo que iria faltar: as duas camas, a mesa bamba e as quatro cadeiras, o fogãozinho de duas bocas e o armário de guardar roupa. Esse era o tudo. Sem o tudo, só conseguia enxergar o barro que havia em volta, no chão, nas paredes, no teto, na cor da pele.

— Dona Margarida falou que esta noite nasceria de novo o Menino Jesus, falou a mãe. Mas agora…, e começou a chorar.

O pai pegou os três camelos, deu um para a mãe, outro para o filho e ficou com o terceiro, o de Melchior, cuja cabeça também tinha sumido. O menorzinho ficou olhando e não ganhou nada. Os três salivaram, chuparam e engoliram as figurinhas de marzipã que ficaram guardadas desde o ano passado. O menorzinho só salivou.

— As duas vaquinhas ficam para amanhã. O berço também. Agora que não tem o Menino…, a mãe chorou mais.

Dez minutos depois, uma estrela muito brilhante iluminou a silhueta do pai no alto do lixão fedorento, no momento em que ele jogava fora os ossinhos cartilaginosos do bebê.

 




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