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5 de outubro de 2019

O movimento organizado

O semáforo fica verde para os pedestres e concede dez segundos às mulheres jovens para cruzarem a rua. Todas cruzam. Na sequência, é a vez das crianças acompanhadas por adultos: cinco segundos. Uma senhora, puxando seu filho pela mão, se distrai com qualquer coisa e perde o tempo que lhe cabe. Estava no meio da travessia quando o sinal ficou verde para os carros. O primeiro automóvel que arrancou por pouco não atirou os dois para longe. Ela estancou, apavorada, e apertou seu menino contra o corpo enquanto os outros carros passavam quase voando pelos lados, buzinando enfurecidos e levantando sua saia até a cintura. Um calvário de quase cinco intermináveis minutos, que a deixou paralisada no meio da rua. Um sufoco! Ela olhou para o filho e tocou seu rosto para conferir se ele ainda respirava, apesar dos olhos esbugalhados. Sim, o menino ainda estava vivo. Os dois ficaram ali, parados no meio da via, desorientados, sem saber se podiam continuar a travessia até o outro lado da calçada.

Cor vermelha para os carros, o semáforo indicou que era hora de os ciclistas atravessarem a rua: três segundos. A mãe e o filho, abraçados, assistem, impassíveis, à invasão das pernas que pedalam com fúria e velocidade. Os próximos dez segundos são para os velhos e para as pessoas com dificuldade de locomoção. Cadeiras de roda, andadores e muletas enchem a rua, desviando-se como podem da mulher e da criança que ainda estavam no meio da via. O menino se desespera, larga a mãe no meio da rua e desembesta a correr até o outro lado. Ela levanta os braços, grita e sai atrás dele. O semáforo torna a ficar verde para os automóveis. A mãe consegue chegar à calçada e agarra o filho pelos braços. Nem pôde começar a surra que pretendia dar no menino: um guarda apareceu e se colocou entre os dois, disposto a multar a mulher por ter atravessado a via num momento que não lhe correspondia. Em pouco tempo uma multidão se formou em volta deles. O policial se sentiu ameaçado e pediu reforço pelo celular. Urgente!

Enquanto isso, o semáforo continuou a executar a função para a qual fora criado: ficou vermelho para os carros e concedeu vinte segundos para a travessia do público em geral. Cruzaram a rua os que carregavam cadeiras de praia, os ambulantes com seus carrinhos de batata frita, as senhoras que iam às compras, os homens de negócios com gravatas coloridas, os estudantes, os desocupados, os mendigos, os engraxates, as gentes de todos os dias. Verde, vermelho. Verde, vermelho.

 




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