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31 de janeiro de 2020

O mundo dos gatos

No começo, Deus criou o gato olhando-Se num espelho: Sua imagem e semelhança foram preservadas. E depois Deus olhou Sua criação e viu que isso estava bem. E estava, de fato, muito bem, salvo que o gato era folgado e preguiçoso. Não queria fazer nada diferente de se espreguiçar, se lamber e buscar o calor do sol. Os gatos que vieram depois confirmaram essa tendência: todos iguais ao primeiro. Milênios depois Deus criou o homem com um único propósito: servir aos gatos. Aos bichanos, Deus deu a indolência e a lucidez, ao homem, a neurose, a depressão, a habilidade para trabalhos manuais e o amor aos felinos. O homem se dedicou com afinco à missão que lhe foi imposta: aos gatos, tudo. Durante séculos, junto com os homens que vieram depois, construiu uma civilização baseada em inventos, na produção desenfreada de coisas supérfluas e no consumo intenso dessas mesmas coisas. Formaram, todos irmanados, uma sociedade exemplar sem outro objetivo que não proteger os gatos e dar-lhes conforto e bem-estar. Com essa premissa em mente, os homens inventaram a almofada, o aquecedor de ambiente, a cumbuca de leite, a caixa de areia, o tapete, o novelo de lã, a bolinha de borracha, o atum em lata, a cesta quentinha para dormir, o purificador de ar para eliminar cheiros indesejados e uma porção de outros objetos para os felinos. Tudo para eles, os seres de quatro patas. Os homens inventaram inclusive o rádio, porque estava claro, desde o início, que os gatos apreciavam música. Mas os homens, com o passar do tempo, se esqueceram de que tudo era para o bem dos gatos e passaram a crer que eles, homens, eram os verdadeiros seres privilegiados por terem todas aquelas invenções à disposição. Eram eles, os homens, os abençoados.

Os bichanos fingem que acreditam, olham ao redor, espreguiçam o corpo, lambem as patas e vão, quando têm fome, alheios a tudo e seguros da própria vontade, beber um gole de leite. Como são perfeitas as coisas no mundo dos gatos!

 




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