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19 de junho de 2018

O normal

O normal é que as visitas fiquem longe, a distância segura. Que, alguma vez, uma criatura se detenha e o olhe com alguma atenção, ou até toque de leve o seu braço, isso é uma raridade, quase nunca acontece.

O normal é que procure forjar no rosto, sem sucesso, um sorriso apagado e sem vontade. O normal é que passe os dias sentado na cadeira de rodas, com o olhar perdido, sem recordações, como se nunca tivesse existido. Esse é o normal. O raro é se lembrar de algo, sorrir quando uma imagem familiar lhe vem à cabeça ou quando alguém lhe dirige a palavra, em resposta à muda mensagem de seus olhos: “Ei, ainda estou aqui”.

O normal é que o ar fresco que paira no pátio do asilo movimente de maneira imperceptível o fio solto da atadura pregada em sua perna. Que o velho sonhe em arrancá-la de um puxão, dobrando o corpo e esticando a mão trêmula, mesmo sabendo que isso é um ato impossível, aí está o inédito, a novidade, o que não vai acontecer nunca.

 




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