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12 de março de 2019

O ofício

Uns trabalham o ouro e a prata, outros a madeira, outros mais a farinha. Eu me afanei com as palavras. O talento que tinha, se é que tive ou tenho algum, não alcançou para os instrumentos musicais ou as atividades comerciais, tampouco para as profissões mais acalentadas pela gente da minha idade. Descobri, não sei como, não sei quando, talvez lendo os livros que o colégio pedia, o que queria para minha vida. Fui imantado pelo brilho que às vezes se desprende das palavras. As palavras são, ademais, baratas. E são de todos.

São de todos, mas há que conhecê-las. Não tardei a perceber que seu manejo requer um largo aprendizado que, muito além do conhecimento exaustivo das normas, se estende por um vasto espaço de intensidades, de aprofundamento de pensamento e domínio estético da expressão escrita. Nada disso se alcança senão à custa de esforço constante e muita solidão. Essa viagem sem ponto de chegada através de um emaranhado de palavras determinou a minha vida, dando-lhe sentido, direção e, não menos precioso, tornando-a suportável.

De nada inevitável que sucede a qualquer pessoa as palavras me salvaram. Com elas se me foram queridos, ganhei e perdi amores, sorri e chorei, fiquei doente, me curei, suei, me iludi e o seu contrário, tive e deixei fugir esperanças. Também com elas adoeci dessas ilusões próprias da juventude rebelde e sã, ilusões que logo o tempo desgastou como desgasta as pedras duras a água mole que nelas roça o dia inteiro, o tempo inteiro.

Com as palavras soltei a imaginação da mente e a pus para voar, com elas catei no chão os cacos daquelas mesmas esperanças, envergonhado de acreditar que o firmamento infinito admitiria uma só pequena partícula de sucesso. Com elas quis compreender os sonhos, os rostos que amei e perdi, os olhos dos gatos, a luz imperturbável da lua cheia numa noite de verão. Quis com elas compreender o amor. Nomeei com frágeis e quebradiças palavras tantas coisas, e essas coisas nem sabem que as nomeei!

Com esforço e trabalho dei vida, numa prisão de palavras, ao fato de ser um homem livre. Não é grande coisa nesta vida de prisões que se leva, em que liberdade é artigo de pouca sedução ou nenhuma importância.

 




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12 de março de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética liberdade, ofício, palavras

               
              
            
                

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