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22 de outubro de 2014

O ovo da serpente

ovo 1

Os meninos respondem à chamada oral de joelhos. Ao menor erro levam uma bofetada. Eu ando entre eles e percebo tudo. Nada me escapa. A lição inteira, de cor e salteado, caso contrário… À tardinha rezamos: “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome…”. Ouço aqui e ali o barulho das correntes quando tocam o chão. Não é um barulho que incomode muito, porque nem todos os meninos estão amarrados, só os rebeldes, os falastrões e os que insistem em olhar diretamente nos meus olhos. À noite comemos e descansamos.

Pela manhã é hora de trabalhar. Solto as correntes e os mando para a rua, todos com a mesma missão: encher os bolsos de moedas e notas amassadas. Há muitas pessoas nesta cidade, gente disposta a ajudar meninos dispersos por aí, de modo que se eles fizerem corpo mole e voltarem de bolsos vazios… já sabem. No meio da tarde eles me entregam o produto generoso de seu trabalho. Estou orgulhoso de meus meninos.

Há mais ou menos quinze anos comecei nesse negócio de administrar institutos de educação – um bom negócio, diga-se, que me dá muito prazer. No momento só cuido de meninos. Penso em expandir minha atividade e cuidar também de meninas. Será um grande salto profissional para mim. Isso aqui é um bom negócio, sabe?

 




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22 de outubro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos opressão, ovo da serpente

               
              
            
                

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