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31 de janeiro de 2017

O pai e o filho do pai

Quando for adulto quero ser advogado como meu pai. Para isso terei que aprender a falar como ele, usando aquelas palavras tão estranhas que ele pronuncia o tempo todo. Eu não entendo o significado delas, mas têm um som bonito: processo recursivo, data venia, ação declaratória, dolo, ação direta de inconstitucionalidade, agravo, arresto de bens, cláusula pétrea, transitado em julgado e muitas outras. Costumo anotar todas elas numa lista e às vezes pratico na frente do espelho. As palavras de que gosto mais são deserção de recurso. Acho que têm a ver com desertar ou algo parecido.

Ontem mesmo contei ao meu amigo Luizinho que, quando crescer, vou ser advogado como meu pai. Ele achou a ideia muito boa e uma grande coincidência, porque, quando for maior, também quer seguir a profissão de seu pai. O pai do meu amigo também utiliza palavras difíceis, está sempre falando em comparecimento ante a justiça e reação da imprensa golpista. Além disso, o pai do Luizinho vive se encontrando com uns homens de gravata que lhe dão envelopes fechados. Nem eu nem o Luizinho sabemos o que tem dentro deles.

Agora eu e o meu amigo estamos fazendo juntos a nossa lista de palavras, como um tipo de treinamento para quando formos adultos. Como o bom advogado que serei, eu finjo que entendo todas elas. Mas no final não vai ter jeito: vou ter que perguntar pro meu pai o que significa prevaricação.

 




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