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27 de maio de 2017

O paletó cor de caramelo do meu pai

Na condição de único filho homem, coube a mim, quando meu pai morreu, a responsabilidade de esvaziar seu guarda-roupa e dar destino às peças que lá estavam. Não tive problema com as camisas, eu as tirei do cabide como se delas arrancasse o esqueleto. Nem com as calças tive dificuldade, tampouco com as gavetas de cuecas e meias. A tarefa de mexer com os paletós, porém, me fez passar mal. Senti vertigem ao tocá-los, como se visse meu pai inteiro, ereto, vigoroso dentro deles. Meu pai era os paletós que vestia. Um, especialmente, me fez estremecer e suar frio: o de cor de caramelo, não por acaso o seu preferido. É a imagem mais nítida que tenho dele, a de homem elegante em seu paletó castanho. À medida que envelhecia, meu pai passou a usar seu paletó caramelo o tempo todo, mesmo dentro de casa, no frio ou no calor, como se fosse um uniforme. E lhe caía muito bem, mesmo que os bolsos tivessem se transformado em sacolas para guardar de tudo e a lapela estivesse puída e sem o aprumo de outrora.

Eu me lembro dele com a barba por fazer, sentado na frente da televisão, empertigado em seu paletó predileto, que lhe dava um ar descuidado e boêmio, mas muito charmoso. Ele parecia um velho interessante e inteligente, como os escritores de aparência desleixada que adoramos admirar. E agora o paletó caramelo estava ali, pendurado no armário, imóvel, esperando que eu lhe desse um destino. Tirei-o do cabide com cuidado e cerimônia, como se de algo sagrado se tratasse. Encostei-o no meu rosto, cheirei-o. Para mim, aquele paletó era o meu pai feito tecido, linha e botões.

Tive a tentação de vesti-lo, mas não o fiz, seria como se me metesse na pele de outra pessoa. Revirei os bolsos e os encontrei vazios. Quando os pais morrem, os filhos buscam, quase em desespero, restos deles em algum objeto, uma qualquer coisa que retarde a falta que eles certamente farão. Por exemplo, uma mensagem ou sinal que permita entender um mistério, um enigma, algo apenas insinuado ou nunca dito durante a vida. Isso pode estar entre as páginas de um livro, numa sopeira, numa lata de biscoito, numa caixa de sapatos, no bolso de uma roupa… E os bolsos do paletó caramelo do meu pai estavam vazios. Nada havia ali que pudesse me surpreender. Ao dobrá-lo para juntá-lo às demais roupas para doação, percebi algo duro numa das mangas. Enfiei a mão e tirei de lá, preso com um alfinete, um ás de copas.

Ali estava a realidade: meu pai guardava um ás de copas na manga de seu paletó cor de caramelo! Durante alguns minutos fiquei atônito. Ele não costumava jogar cartas, então essa só poderia ter algum valor simbólico. E o que significaria? Fui até a gaveta onde minha mãe guardava o baralho que a família usava nas reuniões dos domingos e lá não faltava o ás de copas. Meu pai, certamente, tinha trazido a carta de outro lugar. De onde? Por quê? Para quê?

Saí do quarto pensando que meu pai, além do paletó cor de caramelo, tinha me deixado um segredo como herança.

 




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27 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos herança, pai, paletó, segredo

              
            
  1. Muito bom texto Mário. É o tipo do texto que escrevemos para nós mesmos, mas você conseguiu passar a “intrigância” do dilema. Imagine se é um segredo para você, para nós, que não tivemos o prazer de conhecer seu pai, é um mistério insolúvel.
    Fique com meu abraço.

    • Caro Sílvio, obrigado pela leitura e comentário. A “intrigância” foi justamente o meu motivo para esse texto, você captou bem. Volte sempre aqui. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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