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27 de junho de 2016

O palhaço

palhaço togadoMeu pai foi advogado, como meu avô. Tinha no estudo e compreensão das leis o seu objetivo de vida e procurou, de todas as formas, transmitir esse gosto aos três filhos. Sempre acreditou que pelo menos um deles herdaria sua vocação. Minha irmã bem que tentou mas, mal havia cumprido o primeiro semestre da Faculdade de Direito, anunciou que sua paixão eram os números e foi trabalhar num banco. Meu irmão mais velho também se esforçou e, depois de alguns problemas com a justiça, pôs de lado os volumes do Código Civil e hoje lidera uma banda de heavy metal chamada “Os Juízes Ululantes”.

Caiu sobre mim, o caçula, a responsabilidade de continuar a linhagem familiar dedicada às leis, mas tampouco eu pude realizar o sonho de meu pai. Lembro-me do dia em que lhe disse que queria ser palhaço: ele baixou os olhos, murmurou Eu não merecia isso e trancou-se no quarto. Minha mãe me repreendeu pela grosseria e foi atrás do marido.

Faz muito tempo que minha mãe não está mais conosco e meu pai agora vive num asilo, onde passa os dias olhando para o vazio e tentando se lembrar do próprio nome. Eu o visito toda quinta-feira, mesmo que ele não me reconheça. Visto meu traje especial, ponho a bolinha vermelha de borracha no nariz e pinto nos lábios um enorme sorriso. Quando me vê chegar, o rosto do meu velho se ilumina. Interpreto para ele meu número especial, “A Toga Incendiária”. Ele gargalha e aplaude como uma criança. Quando me despeço, meu pai segura meu rosto com as mãos trêmulas e me olha nos olhos: Você é a alegria da minha vida, meu filho.

 




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