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14 de abril de 2017

O Paraíso

Será que morri e sou o último a me inteirar disso? Não me lembro de ter ficado doente nem sofrido um acidente. Comer aquele pimentão recheado só para deixar minha mãe feliz, embora eu soubesse que iria amargar horas de ânsia de vômito e alergia estomacal, não me parece razão suficiente para encerrar de maneira tão definitiva a minha passagem por este mundo. Mas a situação que percebo ao redor de mim — essa gente que circula a passos lentos pela sala, que para diante de mim e balança a cabeça, que toca as minhas mãos frias e murmura “era tão jovem”, essas flores todas — é, sem dúvida alguma, o meu funeral. Não vejo, então, alternativa a não ser admitir que, sim, minha história acabou aqui. Não houve aviso prévio, nem anestesia ou cena de despedida, e estou sendo expulso da Terra sem direito a apelação. Além disso, tenho que me manter impassível, aguentando a cara de falso vinagre da vizinhança, que veio apenas pelo cafezinho e pelas broas de milho que a Jurema, coitada, tão prestativa, fez. A dona Sirlene, Deus me perdoe, só o que faz é assoar o nariz e jogar o lenço de papel bem no meio das roseiras, emporcalhando o meu jardim. Isso não se parece nem um pouco com a ideia que eu tinha do Paraíso. Por outro lado, agora ficou claro para mim que o Paraíso não é o único destino para quem deixa este mundo.

 




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