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8 de setembro de 2015

O parto inacabado

cebolaNa cozinha, Catarina chora. Está cortando cebolas. Enxuga as lágrimas com o dorso da mão direita. Observa o gato, deitado perto da janela.

As cebolas não carregam sozinhas a culpa pelas lágrimas de Catarina. Há outro motivo que a faz chorar, e que neste exato momento ronca no quarto que fica a poucos metros dali, no fim do corredor. É lá que Rafael está – Rafael, o outro motivo que faz Catarina, sua mãe, chorar.

Rafael dorme, quando deveria estar fazendo algo de mais proveito para si, para Catarina, para a humanidade de uma forma geral. Mas não: aos quarenta anos, ainda vive com a mãe. Refém das dívidas de jogo e de outras drogas, ele pesa uma tonelada nos ombros de Catarina, não só porque seja gordo e lerdo, antes por ser inútil. A casa em que moram está dilapidada e tudo o que possuía algum valor foi trocado para bancar os vícios. Desde o dia em que viu o filho tentando meter o gato numa cesta para vendê-lo, Catarina concluiu que o limite chegara. Nunca mais perdeu o bicho de vista, nem deixou que Rafael se aproximasse dele. Hoje Catarina está mais cansada que nunca. E chora, não só porque corta cebolas.

Ouve o ronco de Rafael, tão forte como uma trombeta. Larga e faca que está usando para cortar as cebolas e pega outra, maior. Caminha até o fim do corredor, decidida. Está mais do que na hora de tomar ar puro, de desatar o nó, de aliviar as entranhas, de finalizar o parto e de cortar de uma vez por todas esse cordão, velho de quarenta anos.

 




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8 de setembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cebola, cordão, faca, parto

               
              
            
                

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