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17 de dezembro de 2014

O passado presente

quarto de menino

Quem lá entra logo sente o perfume de alfazema. Dona Agnes faz questão de cuidar ela própria do quarto de Celso, seu único filho. Tira o pó dos móveis, encera o chão, lava e passa colchas e cortinas. A cada ano manda renovar a pintura das paredes e sempre há uma toalhinha nova para enfeitar a escrivaninha. Passa horas lá dentro, arrumando os porta-retratos, os brinquedos de seu menino, o uniforme da escola, os cinturões que o pequeno atleta ganhou no caratê. Seu universo particular, seu pequeno pedaço de paraíso, sua dose diária de bálsamo benigno: assim é o quarto de Celso para dona Agnes, cuja porta ela mantém fechada, cômodo alheio ao restante da casa.

O gaveteiro, de madeira maciça, é um mundo à parte. Ali dona Agnes guarda um tesouro. Uma caixinha com um jogo completo de dentes de leite repousa entre roupinhas de bebê, pequenos cobertores, mamadeiras e chupetas. Desenhos feitos no jardim de infância disputam espaço com livros infantis, cartilhas, cadernos de caligrafia e vários álbuns de figurinhas. A primeira redação, a poesia para o Dia das Mães, o diploma do ginásio: os papéis estão cuidadosamente protegidos em sacos plásticos e a salvo de qualquer dano. O tempo, ali, ficou suspenso e se esqueceu de passar. Ali, o tempo não existe.

Celso agora mora na capital. Faz faculdade e trabalha numa empresa de engenharia. Às vezes vem visitar a mãe viúva nos feriados e, não raro, entedia-se ao abrir a porta de seu antigo quarto e contemplar o museu de si mesmo. Não dá valor às coisas de seu passado, os olhos sempre fixos no futuro.

Já faz muito tempo que ele não aparece para ver a mãe. Dona Agnes ainda não percebeu.

 




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