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2 de janeiro de 2018

O pernil

Num dia qualquer, há algum tempo, recebemos em casa, sem qualquer explicação ou motivo especial, um pernil cru. Esse fato produziu na família um choque emocional de grande proporção. Ficamos todos sem palavra quando desembrulhamos o pacote e vimos o que havia dentro. Era uma perna de porco perfeitamente cortada, simétrica e coberta por uma capa dourada de gordura que lhe dava um aspecto quase sobrenatural. Nenhum de nós, nunca, havia visto uma peça como aquela. Resolvemos por unanimidade que ela deveria ser pendurada no teto da despensa e logo colocamos a ideia em prática. Em turnos, passávamos vários minutos por dia olhando-a, adorando-a em sua solidão perfumada. Minha mãe explicou, com paciência, como ela deveria ser cortada e de que espessura deveriam ser as fatias. Enfatizou que, nas profundezas daquela carne, havia, intacto, um osso que, ao final de tudo, serviria para fazer uma sopa deliciosa e suculenta. Se perguntássemos quando começaríamos a comer o pernil, ela respondia de pronto:

— No dia em que tivermos uma faca de cortar pernil.

Não poderia ser qualquer faca. Tinha que ser uma especial, que aparecesse em nossa casa de modo inesperado, ou inexplicável, tal como o pernil. Teria um cabo diferenciado, uma lâmina brilhante e um corte desafiador, preciso. Todos esperávamos o aparecimento dessa faca com ansiedade religiosa. Enquanto isso não acontecia, exibíamos nossa peça de carne como se fosse uma obra de arte — bela, inatingível, adorável. Lembro-me de trazer meus colegas de escola para vê-la: entraram em silêncio na despensa e levantaram lentamente os olhos para o teto. Um “oh!” em uníssono se ouviu. Não ajoelharam diante da visão, mas faltou pouco. As visitas que recebíamos, depois de tomarem chá com biscoitos, eram brindadas com uma passada silenciosa pela despensa, para que admirassem nosso suculento naco de carne. Minha mãe se desculpava por não lhes oferecer uma fatia de pernil:

— Ainda não temos a faca apropriada para o corte.

Poucos dias depois, o cheiro que vinha da despensa tornou-se insuportável e vimos, com tristeza infinita, a capa de gordura derreter por completo, expondo a nudez da carne, já tomada pelos vermes e pelas moscas. Com o coração apertado, concluímos que era hora de nos desfazermos do pernil. Não o jogamos na lixeira, e sim o enterramos no quintal, como alguém que tivesse falecido. Minha mãe o embrulhou com cuidado num pano de prato e toda a família ajudou na tarefa de cavar um buraco na terra.

Agora, sempre que descemos ao quintal, olhamos com tristeza para o pedaço de terra onde o pernil está sepultado. Nossa língua nunca sentiu o sabor daquela carne, nem sua textura, nem mesmo sua provável maciez. Tivemos que adiar esse prazer e esse sonho. Que falta faz uma faca apropriada!

 




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2 de janeiro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos carne, faca, pernil, prazer, sonho

               
              
            
                

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