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15 de julho de 2016

Peso morto

mendigo3Eu gostava mais como era antes, quando ele ficava esparramado no sofá vendo televisão, vestindo nada mais que cueca e camiseta, a lata de cerveja numa mão e o cigarro na outra. E as gargalhadas. Como eu me divertia vendo meu pai gargalhar! Às vezes dormia, raramente tomava banho, e minha mãe nem se importava, já que “ele não presta mais como marido, que fique aí, jogado feito um pano molhado, que eu tenho mais o que fazer”.

Sem me cansar, eu podia passar horas vendo como ele equilibrava a cinza do cigarro e as figuras que fazia com a fumaça que saía de seu nariz. Um menino pode achar diversão em qualquer coisa, e eu me divertia muito com meu pai, que pouco falava e, quando abria a boca, era pra soltar palavrões. Ou arrotar.

Minha mãe fala que prefere como ele está agora, com essa espuma espessa e branca que vive escapando de seus lábios moles. Diz que pelo menos tem a pensão, ainda que miserável, que o governo paga. Juntando com as esmolas que ganha na porta da igreja, dá pra juntar algum e pagar as contas no fim do mês. O duro é arrastar esse trambolho, esse peso morto até a escadaria da catedral e ficar lá o dia inteiro. Ela reclama e xinga o tempo todo, mas sempre dá um sorriso quando confere as moedas que os passantes atiram no chapéu do meu pai.

 




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  1. É muito triste, eu particularmente, não vi amor! Vi que a vida é injusta! É terrível quando alguém que amamos se transforma em “peso morto” …

    • Você tem razão, Leman, o conto é bem cruel. Cruel pela situação do homem, e mais cruel ainda pela indiferença da mulher que, além disso, ganha dinheiro em cima da miséria do companheiro. Obrigado pela visita ao blog. Abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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