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6 de fevereiro de 2020

O poema e a poesia

A poesia é o mundo

em estado de arte.

Com ela tudo se transforma,

até a solidão (essa indesejada e necessária companheira)

e seu significado,

embora a poesia não construa suficientes paraísos

nos quais a solidão possa entrar

e deles sair mais consolada,

mais ordenada,

menos dolorida.

 

O poema:

deve-se colhê-lo com as mãos em concha,

delicadamente.

É recomendável esfregar álcool-gel antes e depois,

com cuidado e bem,

para que não fiquem manchas

nem sobrem rastros em sua face serena.

 

Feito de líquidos —

sangue, lágrimas, saliva,

suor — e palavras,

o poema ensopa o papel em busca da poesia para vir à luz,

e ela, a poesia, adverte:

chegar à luz é possível,

basta um pouco de paciência e silêncio,

como têm paciência as pedras,

que, imóveis,

suportam sem gritar o suplício das pisadas.

Das pedras se desprende um sentimento,

um algo humano:

elas pressentem a aproximação

das patas dos cavalos

e choram silenciosas lágrimas de poeira.

 

Talvez não seja grande coisa o poema,

mas mais terrível é a tempestade sem versos.

E, sem poesia,

o que resta é chorar,

chorar muito.

A poesia é o último sítio onde,

de joelhos,

pode-se pedir: misericórdia!

 




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6 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia misericórdia, poema, poesia

              
            
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