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2 de agosto de 2019

O ponto no final

As garatujas de uma consulta com o oncologista escritas num papel qualquer: quinta-feira, dia 10, às duas da tarde. O celular carregando na tomada. Os comprimidos alinhados na pia do banheiro, não se esquecesse ela de tomar, no horário que devia ser. O batom incolor nos lábios, só o brilho, não precisava de cor. As chaves do apartamento, que alugou fazia dois meses, de só trinta metros quadrados. Três mil centímetros de liberdade, costumava dizer ao olhar a minúscula sala, mesmo que, abrindo a janela, seus olhos batessem no paredão do prédio vizinho. É demais exigir horizonte se não puder pagar por ele, já estava conformada.

Um atropelo, a distração do motorista de um ônibus, um corpo atirado ao longe. O dela.

A peruca voou, sua cabeça raspada ficou à vista, a minissaia subiu até o peito, os sapatos de salto, seus favoritos, separam-se pela primeira e última vez, os pés nus, só com as meias de náilon rasgadas, estavam encolhidos. O corpo, o dela, inerte. Disseram que o condutor, quando viu, entre assustado e aliviado, gritou Ufa, pensei que fosse um travesti! Não era.

O colar de pérolas verdadeiras, presente que sua avó lhe dera às escondidas antes de morrer, e que ela exibia com orgulho, se quebrou e deixou uma linha branca de reticências sobre o preto do asfalto, que foi se encontrar com a linha vermelha que saía do seu decote. Na interseção, o ponto final.

 




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