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25 de julho de 2016

O preço

preçoAssim que dobrasse a esquina e caminhasse até o meio do quarteirão, estaria de novo no mesmo lugar, e ele sabia disso. Exatamente: o lugar que, cinco anos atrás, tinha abandonado com essa mesma maleta na mão, fugindo de medo duma barriga indesejada.

Debruçada na janela do segundo piso, ela estende as roupas que acabou de lavar. O mesmo cabelo rebelde quase cobre-lhe o rosto, e ela o afasta com um gesto delicado da mão, os dedos abertos. Interrompe o trabalho por um instante quando o vê lá embaixo, parado. Olham-se e nesse olhar trocam tristezas, lembranças, arrependimentos. Ele imagina um leve sorriso nos lábios dela, ela se pergunta o que o passado faz à sua porta.

— O senhor é cliente da minha mãe? — pergunta o garoto que brinca com bolinhas de gude na calçada.

A voz da mãe vem rápida:

— Arturzinho, não converse com estranhos, já avisei. Entra. — ela grita, antes de fechar as janelas com gestos secos.

O cheiro de comida vem do segundo andar e invade as narinas dele, junto com a lembrança dos beijos que não deu e do filho que não educou. Cabeça baixa, decide seguir caminho, levando na alma o preço de um lugar na cama que um dia foi sua.

 




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