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7 de agosto de 2020

O predestinado

Ele se julgava predestinado. Estava convencido de que recebera uma missão divina e se esmerava para cumpri-la. Matava idosos. Abreviava, sem qualquer resquício de pudor ou arrependimento, a vida dos velhos e das velhas que encontrava pelo caminho. Tinha tino: nem precisava ver de perto a bengala ou a pele flácida, os cabelos brancos ou o andar titubeante. Se era velho, concluía que precisava morrer, desocupar o planeta, desinfetar. A Previdência, sem saber, era-lhe grata: desembolsava cada vez menos dinheiro com essa gente que não produzia nada e só servia para onerar o Estado, e assim o Estado, com a súbita folga de caixa, poderia usar os recursos para coisas que julgasse mais importantes. Ele atuava de modo silencioso, sem alarde ou escândalo. Discreto, não gostava de chamar a atenção. Um aperto mais demorado na garganta, um empurrão no alto de uma escada, a perna na frente para provocar o tropeção, o perdigoto que lançava diretamente no rosto da vítima — o método era variado. Ninguém nunca suspeitou de nada. Bastava ser velho para se tornar alvo de sua sanha justiceira. Era preciso aliviar o mundo de gente desocupada, que só trazia despesa e atrapalhava o progresso. Até que um dia ele se distraiu fazendo a barba e gastou tempo demais olhando o próprio rosto refletido no espelho.

 




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