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6 de março de 2017

O que vai ser de mim

Queria ter um papel e um lápis à mão, e o pulso e os olhos de quando tinha vinte anos, para escrever os pensamentos que ainda povoam minha cabeça. Por exemplo, que a vida passa às vezes tão rápido que não percebemos, que nossas vísceras ficam tão carregadas de tristeza que é difícil respirar, que a morte abre passagem sem permissão como se fosse uma rainha má que a todos quer decapitar — escrever coisas assim, enquanto pesadelos sem tamanho pairam sobre meus olhos insones, num revolteio sem fim. Umas poucas palavras, miseráveis porque inúteis, grávidas de espanto e perplexidade.

Se pudesse registrar o terror que sinto num pedaço de papel — que fosse um papel de pão — doeria muito menos essa minha solidão feita de miudezas e insignificâncias. Tenho mais de 90 anos e ainda não sei o que vai ser de mim.

 




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