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9 de setembro de 2017

O relógio de areia

A cidade despertou preguiçosa e abriu as janelas remelentas. Naquele dia seus habitantes demoraram um pouco mais na cama antes de iniciarem o dia. Seria um como outro qualquer, sem maiores dores ou glórias, a não ser pelo ligeiro tremor que fez com que todas as casas se inclinassem para um lado. Um fato surpreendente, mesmo para uma cidade que viceja dentro de um relógio de areia.

No começo, viver dentro daquele mundo movediço tinha se mostrado emocionante. As ruas e avenidas iam mudando seu desenho de forma imprevista, fazendo surgir novos caminhos para o colégio, o supermercado, a igreja e o hospital. Nada tão incômodo que não pudesse ser absorvido de imediato pela população, já acostumada com o inusitado. Ir aos lugares resultava numa grande aventura, porque eles nunca estavam na mesma posição do dia anterior. A vida, naquela cidade, era sempre uma surpresa.

Ninguém se lembra mais de como foram parar dentro daquele sinuoso recipiente de vidro; preferem pensar que sempre foi assim. Já estão habituados às oscilações do chão. O único cidadão que parece se inquietar com o contínuo descenso do nível do solo é Saturnino, o morador mais velho, que com frequência é visto de cócoras em alguma rua, olhando o movimento lento e constante, quase imperceptível, da areia.

Dizem que Saturnino é sobrevivente da última grande tempestade de areia e que é tão velho quanto a própria cidade. Passa as horas sentado com os olhos fixos na parede transparente, olhando não se sabe para onde, à espera. De vez em quando desenha linhas no vidro embaçado, faz figuras com o dedo indicador, formas abstratas que sobem até a cúpula cilíndrica que cobre a cabeça de todos os habitantes do lugar.

Naquela manhã preguiçosa, em que a cidade amanheceu inclinada para um lado, a paisagem dentro do relógio de areia estava particularmente assustadora. Os morros ao redor não deixaram dúvida: sua fina capa de poeira começava a deslizar sobre as pedras das calçadas e ruas, desde a periferia até o centro histórico. Todos foram até a praça principal, curiosos para descobrir a origem do fenômeno. Foi quando a imponente fonte de mármore, localizada no marco zero da cidade, desapareceu sem que se percebesse, engolida por um silencioso e implacável redemoinho de areia. Atônita, a população deu um passo atrás, mas foi inútil: todos, aos poucos, foram tragados pelo poder de sucção daquele funil gigantesco. Caíram um semáforo, depois um posto de gasolina, a fábrica de sorvetes e o prédio do sindicato. No final, a cidade inteira foi sugada por aquele insaciável buraco negro de areia. O último a ser devorado foi Saturnino, que deslizou pelo pescoço de vidro como se estivesse num tobogã.

No andar de baixo, ainda cobertos de areia, todos procuraram uma maneira de se movimentar entre as dunas. Os que conseguiram ficar em pé olharam ao redor e perceberam o desastre em que estavam metidos: sua pequena cidade, para a maioria deles o universo inteiro, estava de cabeça pra baixo. Perceberam, pela primeira vez, que seu livre arbítrio tinha sido apenas uma miragem.

Bom, o tempo agora parece que parou — disse um deles, sacudindo a poeira do paletó. Agora que estamos aqui embaixo, podemos reconstruir tudo sem o risco de voltar a cair.

Nós vivemos num relógio de areia, esqueceram? — a voz exasperada de Saturnino surpreendeu a todos. Nosso tempo acabou, ninguém percebeu?

Não disseram palavra. Apenas olharam ao redor, limpando a areia das roupas e cabelos. Estavam desolados. A tormenta de areia, de que falavam os livros antigos, tinha desabado sobre a cabeça de todos e isso era uma realidade difícil de aceitar. A cidade estava no avesso. Num acordo silencioso, todos decidiram continuar a viver como sempre fizeram desde o princípio dos tempos: esperar que os acontecimentos se sucedessem enquanto aguardavam, com absoluta resignação, o desenlace final. Começaram lentamente a pôr ordem em seus pertences. Iriam reconstruir a cidade.

O velho Saturnino não participou do esforço coletivo. Estava decidido a ir contra esse destino azedo, desprovido de liberdade. Disseram que ele foi visto caminhando para a fronteira norte do município. Levava um martelo numa das mãos. Depois do barulho de vidros sendo estilhaçados, nunca mais souberam dele. Os que ficaram ainda esperam por um final que nunca chega.

 




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9 de setembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos areia, cidade, relógio, tempo

              
            
  1. O texto inusitado e fantasioso prende atenção do começo ao fim. O final deixa um gosto de “quero mais”. Parabéns pelo texto, Mario Baggio!

  2.     
                        
              
            
                

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