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3 de março de 2016

O Roto e o Rasgado

roto3Percival anda com passos curtos e medidos, arrastando os pés e deixando cair sobre os ombros o peso do mundo. Dá cinco passinhos, tosse, puxa uma tragada funda do cigarro quase no fim, tosse de novo, mais cinco passinhos. Ele vai do lar de idosos onde vive até a cafeteria do outro lado da rua: é sua caminhada diária, trajeto que leva uma eternidade para cumprir, mas que não oferece risco maior que esperar o semáforo se tornar verde e atravessar pela faixa de pedestres. Não olha para ninguém, avança ruminando pensamentos e saliva de tabaco.

Ariovaldo perambula pelas ruas enrolado num cobertor esfarrapado. Nunca sabe que horas são, só sabe que tem fome o tempo todo. Às vezes se diverte parando de repente na frente das pessoas, o cobertor na cabeça feito um monge franciscano. Todos se assustam, as mulheres dão um grito e saem correndo, esbaforidas. Ariovaldo ri. Já é conhecido na redondeza, mas ninguém sabe seu nome nem onde vive.

Há dias Ariovaldo começou a acompanhar Percival em sua caminhada diária até a cafeteria. Quando ele para, Ariovaldo também para. Os dois formam uma dupla curiosa, como se um estivesse na frente de um espelho. Conversam enquanto caminham, não se sabe o quê. Os olhos de Percival, antes inexpressivos, ganharam nova cor. Ariovaldo passou a mostrar com mais frequência a boca quase sem dentes. O passeio é lento, mas nenhum dos dois se importa com o tempo.

Com o passar dos dias eles se acostumaram com a companhia do outro. Muitas vezes eram vistos juntos sentados num banco da praça, tomando sol e falando numa língua que só os dois compreendiam. O Roto e o Rasgado costuravam as horas e a solidão e se completavam, cada um iluminando a vida opaca do outro.

 




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3 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos rasgado, roto, solidão

               
              
            
                

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