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19 de outubro de 2018

O roubo do sol

Chegou cedo e garantiu seu lugar perto do acesso ao palanque. Ficaria em pé ali, feito um dois de paus, e esperaria o tempo que fosse preciso. Tinha que perguntar e levar uma resposta pro Josenildo e pra Márcia, seus filhos. A mãe deles, a Vanusa, sua mulher, também queria saber. Eles ficaram em casa só esperando a volta dele com um “sim” ou um “não”. Não arredaria pé até saber da boca do homem público. Assim que passasse pra subir até o palanque, ele entraria na frente dos seguranças e perguntaria. Perguntar não ofende, responder também não. Então.

Vou dizer que meu nome é Amadeu, quero fazer uma pergunto pro senhor, quero só que o senhor me diga “sim” ou “não”. O que o senhor disser será a minha verdade daqui pra frente. Vou falar assim. O raio é que tô com uma fome dos diabos, cadê o sanduíche que prometeram? Sukita não vou beber, pra não ter vontade de mijar. Já tem bastante gente lá em cima, daqui a pouco ele passa por aqui. Ué, vai ter missa? Tô vendo padre lá em cima, então na certa vai ter comunhão. Se não tiver sanduíche eu como hóstia, na hora eu vejo se pego umas duas ou três. Fico com o estômago forrado.

Se era verdade que naquelas terras todo mundo era desonesto, o homem público dizia a toda hora e pra quem quisesse ouvir que ele não era. E por esse motivo era admirado e respeitado. Diziam coisas dele, que ele isso, que ele aquilo, que ele aquilo outro, mas nada prosperava: ele sempre rebatia, e negava, negava, negava. Quem estava certo?

O Josenildo, que é o mais velho, disse pra mim um dia: Pai, só tem um jeito da gente saber: vai lá e questiona ele. Pergunta, não custa nada. Chega pra ele e olha na cara, pergunta. Só assim a gente vai poder saber se acredita ou não. Não tem outro jeito. Eu acho que o Josenildo tá certo, ele sabe o que fala. Tá estudando, lê a matéria da escola, sempre gostou de estudar. A Márcia, mais novinha, tá aprendendo. Também falou que o melhor mesmo é perguntar. Eu vou.

Mas tinha um motivo escondido pra ele dizer que não era desonesto: a ambição de entrar para o lado bonito da história, e não se entra para o lado bonito da história de qualquer jeito, só porque a pessoa quer. Possuir caráter ilibado, sem nódoa, sem um só deslize e dono da mais absoluta confiança eram condições obrigatórias para se estar numa página de livro. Ele pelejou, fez campanha, discursou, agradeceu os apoios que recebeu, abraçou todo mundo, sorriu, beijou criancinhas. No final, parecia que ele conquistaria o seu tão sonhado ingresso no mundo dos notáveis.

O que será que deu errado? Eu não sei. A coisa desandou. De uns meses pra cá muita gente começou a achar que ele não merecia nem meio parágrafo do livro, que dirá uma página inteira. A confiança que a gente tinha nele minguou e na semana passada achei o Josenildo até meio triste por causa disso. A Vanusa nem tocava no assunto, e a Márcia tava ocupada fazendo a lição de casa. Foi por isso que eu vim, pra buscar uma resposta e levar pra eles, para ver se desanuviava os olhos deles tudo, pra ver se acabava essa angústia de não saber a verdade.

O homem público que quer entrar para o lado bonito da história aparece lá no alto da escadaria. Começa a descer. Caminha rodeado por seguranças na direção do palanque. Vai discursar, vai explicar por que merece aparecer nos livros, para que todos os alunos saibam quem é ele e estudem sua vida e suas obras.

Pra que tanta gente em volta dele, Deus do céu? Precisa tudo isso?

Amadeu, magro e ágil como só ele, furou o bloqueio dos seguranças e conseguiu ficar na frente do homem público, que teve que interromper a caminhada. Olharam-se nos olhos. O homem público sorriu, todo gentileza. Amadeu não sorriu.

O meu nome é Amadeu e eu quero fazer uma pergunta pro senhor. Os meus filhos e minha mulher tão esperando que eu volte pra casa com uma resposta.

O homem público o olhava de maneira divertida, certamente pensando que era um fã que tinha vindo lhe render homenagem, mas Amadeu estava sério. Tinha uma missão e não sairia de lá sem cumpri-la.

Andam dizendo que o senhor roubou o sol. É verdade? O senhor roubou o sol? Pegou o sol só pro senhor e escondeu, pra usufruir dele só o senhor e sua família? Tirou o sol de nós? Escondeu o sol de nós? A gente que é pobre não pode mais usar o sol? O Josenildo e a Márcia querem saber, a Vanusa também, eu também. O senhor roubou o sol?

Agora sério, o homem público nada disse. Ficou olhando os olhos de Amadeu enquanto os seguranças tratavam de afastá-lo e empurrá-lo na direção do palanque. Amadeu parou onde estava e acompanhou com os olhos o homem público, que também o olhava enquanto seguia em frente, levado pelos seguranças. Lá no palanque começaram a discursar, primeiro o amigo do homem público, depois o primo dele, depois o deputado e até o senador. O padre falaria logo depois. Amadeu não ficou pra ouvir nenhum deles, nada que eles dissessem saciaria a sua vontade de saber. Também não comeu hóstia e foi embora de cabeça baixa e com dor de estômago. Quando longe, olhou para trás. O homem público estava no palanque com os braços abertos, olhando e sorrindo a todos que o aplaudiam. Foi então que Amadeu viu, nas costas do homem público, e só nas dele, um brilho intenso, uma cor amarela e vibrante, que cegava. Era algo parecido com o sol se escondendo por trás dos ombros do homem público.

 




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