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24 de maio de 2019

O som da memória

Trinta anos depois da morte de meu pai, a recordação mais poderosa que tenho dele permanece a mesma, sem mudança. Não está impressa numa imagem. Não é a de quando ele me ensinou a andar a cavalo nem quando me deu a surra por ter me esquecido de desligar o bico do gás ou na ocasião em que ganhei os primeiros trocados para ir ao baile de Carnaval no clube. Nem seu porte e andar de urso gigante ou seus inquiridores olhos azuis. Nada disso dá contorno e nitidez à maneira como me recordo dele.

A lembrança de meu pai me vem à cabeça por outro caminho, tão inusitado quanto um cheiro e igualmente sem explicação razoável. Vem por um som. O ruído que ele fazia quando urinava: o jorro farto, de bexiga inchada e urgente, que saía primeiro como o estouro de uma bomba batendo na água parada do vaso sanitário e, depois de muitos minutos, se convertia numa queda interminável de cascata que ia diminuindo, diminuindo, até secar por completo. Era assim que eu, menino, do outro lado da porta trancada, imaginava que fosse o ato de urinar de meu pai. O barulho extraordinário que vinha lá de dentro do banheiro nunca mais abandonou minha memória.

Talvez fosse porque conversávamos pouco, mas eu nunca entendi por que meu pai, que passava o dia inteiro cuidando da plantação de café, não urinava na solidão do campo, preferindo segurar a vontade de se aliviar até voltar para casa, no fim do trabalho.

Eu sabia do orgulho que ele tinha sentido quando ganhou um dinheiro extra e transformou a “casinha” que tínhamos num banheiro “de cidade”, embora estivesse convencido de que um camponês como ele nunca poderia ter os confortos dos que moravam nas ruas asfaltadas do povoado, aquela “gente remediada que aprendeu a usar garfo e faca e guardanapo.” Não cultivou o hábito, porém, de lavar as mãos quando terminava de jorrar todo o líquido represado em sua barriga.

Agora que volto à velha casa para tratar de entregá-la ao novo proprietário, veio-me à cabeça essa recordação, tão ancestral e ainda impactante. É assim, e sempre será assim, que se impõe a presença de meu pai em minha vida: sonoramente.

 




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24 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos lembrança, memória, recordação, som

               
              
            
                

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