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19 de maio de 2015

O sopro criador

criatividade

Largou sobre a mesa o copo de cerveja sem terminar. Saiu do bar. Ar puro, necessito agora, disse para si mesmo. No fim da ladeira o céu preparou para ele um tapete púrpura, que se estendia até o horizonte. Não pretendia chegar tão longe, mas agradeceu intimamente a vista generosa que o firmamento lhe oferecia.

Caminhou com vagar, mãos no bolso, olhos no chão. Sabia que era a hora, disse vamos lá! e começou a soprar, primeiro com suavidade, logo com força e ritmo. De sua boca, vindos do pulmão, brotaram madrugadas insones, taças de vinho tinto, telas de computador, um pôr do sol alaranjado que enceguecia, palavrões, palavras digitadas a esmo, páginas em branco que magicamente transbordavam de frases, o corretor do Word, o negrito e o itálico, horas passadas nos escritórios dos editores, sete nãos com a cabeça, a chuva que molhava os ossos, a agonia nos pontos de ônibus, a volta para casa, a solidão, a insônia de todas as noites.

Depois de cinco minutos exalando incômodos, seus lábios ainda produziram calcinhas vermelhas, salivas trocadas, um pedaço de unha, um dente quebrado. Aquietou-se. Fechou a boca. Olhou de novo o horizonte. Alargou com força as narinas e inspirou.

Seu corpo começou a inchar de mensagens, tapinhas nas costas, telefonemas, é da editora, quinhentos mil apertos de mão, quadros de Van Gogh, um unicórnio, uma espiral acelerada, um céu cor de maravilha, outros mundos, todos, tantos, e uma enorme alegria. No fim de toda essa inspiração gigantesca vieram, passarinhos fazendo ninho, vários milhões de olhos leitores e sorrisos encantados.

 

 




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