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18 de novembro de 2015

O supervisor

supervisorComo fazia todos os dias, o supervisor verificou as pulseiras de identificação de cada um, confrontando os números e os nomes com o relatório que tinha nas mãos. Em seguida, deixou-os cair na piscina cheia de formol e conservantes.

Os novos corpos se juntaram aos mais antigos, que boiavam há dias no depósito da Faculdade de Medicina. Ele parou um pouco seu trabalho para olhar o cenário. A ruiva que não era ruiva e sim morena entre as pernas, o gordo de pau pequeno, o velho com câncer de pele, a menina – Tatiana, 16 anos, ele consultou o relatório – com a cabeça inchada como uma bola de futebol… Todos, em algum momento, seriam cortados, esfacelados, fatiados pelos estudantes. Suspirou.

O estagiário entrou no pavilhão arrastando um saco de estopa com outros corpos e o deixou no chão. Rapaz de dezesseis anos, estava em seu primeiro emprego, ainda pouco acostumado com a função. Franziu o nariz para afastar o mau cheiro da mercadoria que acabara de trazer. Parou um pouco para olhar os corpos nus boiando na piscina.

O supervisor o observou e viu nos olhos dele mais que apenas curiosidade. Lembrou-se de si próprio quando começou a trabalhar ali, décadas atrás. Aproximou-se dele e pôs a mão em seu ombro, da mesma forma que um pai abraça o filho adolescente diante da vitrine de uma loja e pede que ele diga o que quer de presente de Natal.

“Escolha uma”, disse o supervisor ao estagiário. E trancou a porta do pavilhão com chave.

 




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