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12 de setembro de 2014

O Tejo

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”.

Conhecedor de minha admiração por Fernando Pessoa, um amigo pediu que lhe explicasse a aparente contradição desses belos versos do poeta português. Para mim não há contradição alguma. Penso que a ideia central está muito clara nas palavras finais: “porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Isso esclarece tudo. Mesmo assim, resolvi dar uma “explicação” ao meu amigo. Eis o que eu disse, como se fosse o poeta português:

“Realmente, o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Maior, muito mais largo, mais barulhento, banha a capital da nação. Por ele passam grandes navios, cheios de carga e de gente. Sua correnteza é caudalosa, violenta. Sua grandeza é arrebatadora, sua exuberância desnorteia, seu gigantismo entontece. O rio que corre pela minha aldeia, não: é pequeno, estreito, modesto. Sua correnteza é quase imperceptível – não há movimento, não há barulho, é quase uma água parada. Há, sim, um sussurro, um murmúrio, um quase silêncio, bem diferente do vozeirão do Tejo. É um rio tímido e acanhado, esse que corre pela minha aldeia; um quase nada de água. Nenhum navio navega pelo rio que corre pela minha aldeia. Mas é ao pé dele que me sento e penso; que escuto; que conto segredos (a ele ou a mim mesmo?); que vejo meu rosto refletido na água quase sem movimento; que choro e me acalmo; que morro de frio e fecho os olhos quando o vento encrespa a água; que me lembro de antigas canções, antigos amigos, antigos amores. Nada disso teria lugar ao pé do Tejo. O Tejo é belo, mas não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.”.

 




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12 de setembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética aldeia, rio, Tejo

              
            
  1. Parabéns, Mário!
    Já coloquei um comentário no Linkedin, mas quis deixar um também aqui.
    Tomara que este blog seja o começo de um caminho cheio de satisfações.
    Abraços!

  2. Diga-lhe
    “Feliz dia para quem é
    O igual do dia,
    E no exterior azul que vê
    Simples confia!”
    E após continue explicando! Parabéns!
    Abs!

  3. Oi, Mário.
    O poema de Fernando Pessoa me faz pensar em Heráclito, também. O filósofo nos diz que nunca nos banhamos no mesmo rio, já que tudo muda a cada momento. Mudamos nós e muda o rio, com suas águas a correr.
    Um abraço

  4.     
                        
              
            
                

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