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20 de dezembro de 2016

O tempo-passarinho

O homem maduro olhou para a janela e viu quando o tempo pousou suavemente no parapeito. Aproveitou um descuido dele e o agarrou. Sorriu ao sentir o tempo-passarinho preso entre os dedos, tentando bater as asas. Colocou-o na gaiola que tinha em casa, vazia desde que seu canário de estimação morrera de tanto cantar pela liberdade. Era uma gaiola de grades finas de metal dourado, com assoalho de reluzente cobre, e parecia feita sob medida para a moradia do tempo.

Agora que possuía o tempo preso, sem possibilidade de voar ou correr ou fugir, o homem maduro começou a viver uma vida desregrada e a abusar de todos os vícios e prazeres que se lhe apresentassem. Não se poupou de nada, e a tudo se jogou de peito aberto, com intensidade e sem censura. Tais eram os excessos a que se entregou, e tão mergulhado estava neles, que não percebeu como o tempo-passarinho foi mirrando e piava com menos vontade a cada dia. Estava, se bem observado, mais e mais triste, mais e mais abatido, à medida que o calendário ia avançando sobre as horas, derretendo-as. O homem maduro não percebeu esses sinais, até a noite em que, cavalgando em desvario sobre o lombo da lua cheia, os olhos repletos de estrelas, sentiu uma dor lancinante no peito e viu seu coração saltar e esborrachar no chão de cobre reluzente, o mesmo chão em que um dia dormiu o tempo. O tempo que agora não existe mais.

 




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