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7 de junho de 2018

O tesouro do capitão Cruzes

Munidos de foice pra cortar as ervas daninhas e pá pra cavar a terra, eu e meu grande amigo Arturzinho fomos abrindo caminho na mata, até o meio da ilha. Depois de quase duas décadas procurando, finalmente encontramos a pista certa, e cá estamos. Com um pouco mais de esforço sei que daremos com o tesouro do capitão Cruzes, aquele tirano sanguinário que nos maltratou na Marinha.

Aqui, apontou o Arturzinho depois de consultar o mapa. Ele estava branco de emoção. O lugar é esse mesmo, tenho segurança. Estávamos sob uma macieira e ao lado de um jacarandá, cujas folhas nunca secam. Sem pensar muito, meu amigo começou a cavar. Tenho certeza de que é aqui, continuou ele, já suado mas muito disposto. Era o lugar marcado no mapa com uma circunferência, que o próprio capitão Cruzes tinha feito. Também peguei uma pá e cavei. Logo encontramos o esqueleto do capitão.

Tudo coincide, disse Arturzinho. O cofre deve estar debaixo desse esqueleto. E estava. Colocamos a ossada sob o jacarandá e puxamos o cofre do buraco. O sol estalava e os macacos estavam excitados com nossa presença, pulando de galho em galho. O esqueleto mostrava os dentes, naquele sorriso constante das caveiras. Respiramos pesadamente e nos sentamos em cima do cofre, para descansar e fumar um pouco.

Quase duas décadas, Arturzinho olhou pra mim a ponto de chorar. Pus a mão em seu ombro. É que somos fortes e perseverantes, e merecemos isso, respondi a ele. Arturzinho concordou. Apagamos os cigarros e partimos para a segunda parte do trabalho: abrir o cofre e dividir o butim.

Com muito esforço conseguimos que a tampa cedesse. Os macacos gritaram mais com o barulho que fizemos, mas isso não incomodou, sabíamos que estávamos sozinhos ali. No fundo do cofre havia uma folha de papel amarelado onde se lia Beijem minha bunda, trouxas. Cruzes.

Veja bem, disse Arturzinho, o objetivo nem sempre é a coisa mais importante. O que conta é o esforço de procurar, não o fato de alcançar. É preciso valorizar o caminho que se percorre para atingir a meta, e não a meta em si.

Catei a foice e cortei fora a cabeça do Arturzinho. Não suporto essas pessoas que começam a conversar com veja bem…

 




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7 de junho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos amigo, cabeça, foice, tesouro

              
            
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