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26 de novembro de 2018

O ulular das corujas

Para a gente que morava lá, as corujas anunciavam a morte. Se uma delas pousasse no telhado de algum vizinho e ululasse a noite toda, no dia seguinte todos se preparavam para o enterro. Não costumava falhar. Mas as corujas não são eternas. Acumulam idade e tempo de voo nas penas, horas produzindo mau agouro, e envelhecem, como acontece com todo ser vivente que não morre cedo. Sofrem de cansaço nas asas e não ululam tão intensamente como quando são jovens. Assim, velha, tem que fazer mais paradas sobre os telhados por conta da fadiga, e o resultado disso é que tem morrido muito mais vizinhos que antigamente. Entretanto, às vezes, por mais que ululasse até chegar a madrugada, não havia defunto no dia seguinte, tão débil era o som que saía de seu bico enrijecido. Em ocorrências como essa, a população se enfurecia e enchia as ruas bradando que tinha direito a um morto e a um velório, pois era assim desde os tataravós, era nisso que todos acreditavam e, sendo assim, era verdade. Que a coruja, exausta, cumprisse sua função e produzisse um defunto, confirmando a crença da população. Como deve ser, desde os tempos ancestrais.

Foi o que ocorreu com o Juvenal, vizinho da quadra de cima. Ele recebeu na noite passada a visita indesejada em seu telhado e, ainda que gozasse de boa saúde e não tivesse a menor vontade de morrer — considerava-se muito moço e ainda não tinha colhido todo o milho —, não viu outra maneira de enfrentar a turba a não ser se mudar para outra cidade, não sem antes dirigir vários impropérios contra a ignorância de seus conterrâneos e dar um tiro na maldita ave.

Outra coruja, mais jovem, apareceu no povoado e a taxa de mortalidade voltou ao normal. Com asas fortes e grande poder de voo, o pássaro noturno quase não para nos telhados, mais interessado em copular e caçar camundongos do que em comunicar óbitos. A natalidade local também conserva níveis estáveis, graças ao cuidado com que a população trata o bando de cegonhas que vive nas redondezas. Elas, igualmente às corujas, trazem anúncios no bico pontiagudo. Desde os tataravós. Era também nisso que todos acreditavam.

 




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26 de novembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos anúncio, cegonha, coruja, ignorância

              
            
  1. Que delícia voltar a ler um texto seu, Mário! Há tempos não fazia isso! Como sempre você consegue fazer por meio da escrita, essa reflexão sobre as corujas e a missão que que elas têm recebido há séculos da humanidade está muito interessante. Amei o contraste das atividades “corujais” que você criou ao colocar as bicudas amigas cegonhas no final. Gostei muito, mesmo!

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