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25 de julho de 2017

O “v” de vitória

Debruçado na janela minúscula do meu apartamento eu via os dois morros. Lado a lado, recortados contra o azul, majestosos, pareciam dois dedos crescidos na direção do céu. Eu os chamava de “v” de vitória. Muitas vezes, pela manhã, xícara de café na mão, eu gastava meus olhos e muitos minutos observando as duas elevações de pedra e pensava: “a natureza é mesmo caprichosa e esperta, me presenteou com uma imagem para toda a vida; enquanto eu viver e morar aqui, terei sempre essa visão generosa”. Nos dias claros, era bonito ver ao longe as cabras pastando nas encostas verdes dos dois dedos; nos dias com alguma neblina, eu apenas imaginava os bichos andando de um lado a outro e a brisa que bulia com a vegetação rasteira e as árvores frondosas que lá havia. Cheguei a sonhar que poderia, quem sabe, viver no meio do “v”. Talvez eu pudesse ser feliz se fizesse isso.

E um dia eu fiz. Vendi meu apartamento e tudo o que possuía e mandei construir uma pequena casa entre os dois dedos. Passei a ver de perto as cabras pastando e a sentir a brisa diretamente no rosto. Era bonito e era bom. No caminho até lá em cima, pensei: “tomei a decisão certa de abandonar a cidade”.

Agora, no inverno, quando o vento zune entre as árvores e eu temo que ele derrube a casa, percebo que a vegetação morreu e, por causa disso, as cabras foram embora. Vejo pela janela a cidade iluminada lá embaixo e penso que os prédios apontados para o alto parecem dedos, muitos dedos de muitas mãos. O “v”, no meio do qual moro hoje, é irregular, uma ponta é mais alta que a outra e, visto de perto, não é tão bonito assim. Aperto os olhos para ver se encontro, naquele mar de prédios, a janela a partir da qual, tempos atrás, costumava ver os dois morros majestosos que pareciam dois dedos crescidos na direção do céu. Não consegui localizar a minha antiga janela.

Ah, humana existência, eterna insatisfação, qual é e onde está o teu sentido?

 




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