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1 de março de 2016

O velho piano

piano2Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia resolveu experimentar: plantou uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um dó maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou sua obra. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade, atravessou as praças, cruzou avenidas e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento tão imponente! Não tardou organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais nas redondezas. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Se perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

Numa tarde de abril o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele sorria.

O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária e uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal. E lá ele permanece, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais importância.

 




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1 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos importância, novidade, piano

               
              
            
                

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