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23 de junho de 2015

O velho

velho1Homem e cadeira eram uma coisa só: assim eu cresci vendo meu avô. Sentado na cadeira da sala – um velho móvel herdado de seus antepassados, de madeira escura e cheia de marcas de dedos nos braços já gastos pelo uso -, ele era ignorado por todos os adultos, que riam alto na cozinha durante as reuniões de família. Não sei o que veio primeiro: se a doença, que o mantinha alheio a tudo o que se passava em volta, ou o próprio estado de ser velho, que fazia com que ninguém lhe desse importância – como não se dá importância a um pano de chão roto e encardido -, mas o fato é que o velho, como o chamava meu pai, estava desconectado deste mundo, onde era considerado um estorvo. Eu o olhava às escondidas e tentava entender para que lugar, para que distância seus olhos se dirigiam.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que meu avô, ainda com vida no corpo enorme, me pegava nos braços e me colocava sobre a perna direita, começando a contar sobre as aventuras da guerra. E nunca se cansava de me mostrar a perna esquerda da calça: não havia perna esquerda e a calça estava vazia. Foi uma bomba, contava ele. Eu o abraçava, sentindo o seu cheiro de vinho e tabaco. Quando se cansava, me colocava de lado e saía do salão, apoiando-se na bengala.

A guerra roubou-lhe a perna esquerda. O resto, a família se encarregou de roubar: a autoridade, a autoestima, o respeito, a opinião, o sentir-se importante, o sentir-se vivo. Meu avô começou a passar muito tempo na cama, só se levantando para ir ao banheiro. O barulho de sua bengala no corredor chegou a ser a única prova de que ainda continuava vivo. Há anos não ouvimos sua voz. E agora ele fica ali na sala, mimetizado com a cadeira: homem e cadeira, um só móvel, indivisível.

Hoje, muitos anos depois, estava ajudando meu pai a consertar uma janela de casa quando tocou o telefone. Meu pai disse apenas umas poucas palavras antes de desligar. Olhou-me e estava sério. Baixou os olhos para o chão e ficou em silêncio por instantes. O velho morreu, disse finalmente, e voltou ao trabalho.

 




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