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17 de novembro de 2019

O verso de Pizarnik

E você me falava das cebolas e outros legumes que tínhamos que comprar, da precariedade do serviço público de transporte da cidade de São Paulo. E me falava da sujeira das ruas e do mau cheiro dos mendigos que passavam por nós na calçada — tudo tão inconstitucional! E, no supermercado, de como abusavam do ar condicionado, Agora temos que vestir blusa de lã para fazer compras, mesmo no verão, que chatice! Eu só abri minha boca uma vez, citando Pizarnik, quando empurrávamos o carrinho no corredor de frutas e olhávamos os melões, os morangos e as goiabas.

Como dizer com palavras deste mundo que de mim partiu um barco levando-me junto?, foi o que falei. A moça que ia à nossa frente girou a cabeça e disse Isso é um verso de Pizarnik!, e se foi. Eu não sei que direção ela tomou, e quando percebi já estávamos no corredor de frios, olhando os queijos e as mortadelas e os presuntos expostos nas gôndolas. Você me disse Os preços dos frios estão todos pela hora da morte, e eu concordei com um sinal de cabeça.

Eu devia ter insistido em saber por onde tinha ido a moça que conhecia o verso de Pizarnik, penso agora, quando levanto os olhos e vejo você largada no sofá, mexendo no celular, as sacolas de compras no chão, e percebo que você talvez não me odeie, mas eu certamente já não valho um tostão furado em sua vida.

 




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