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15 de janeiro de 2020

Olhos de tâmara

A voz desconhecida ordenou que saíssem de lá, que um fogo descomunal feito uma língua incandescente e gigante cairia do céu e arrasaria a cidade, que deixassem para trás os pertences, porque aqueles cacarecos não teriam mais serventia e só iriam atrapalhar a viagem, que cuidassem apenas de salvar a vida, que a vida era uma coisa santa e só quem fosse santo seria preservado, que corressem e não olhassem para trás, que principalmente não olhassem para trás. Então ela e o velho marido Lot, mais os filhos e os criados, trataram de abandonar a casa e tudo o que tinha dentro dela, por mais que doesse. Desapegar dói, e ela e os outros tinham consciência disso, mas a voz tinha mandado assim e ninguém era louco para desobedecer. Saíram com a roupa do corpo e não deitaram nem uma última olhada para o que tinham construído durante anos de trabalho e suor, e que em questão de minutos viraria cinza por determinação divina. Miravam apenas para a frente, para o horizonte, lugar para onde deveriam ir, embora não soubessem ainda o que encontrariam lá. O céu pronto virou breu e se cobriu de nuvens gordas. Pelo brilho dos relâmpagos se podia ver o perfil da cidade que logo seria varrida do mapa e só a Bíblia falaria dela, e falaria muito mal. Os trovões também tinham voz e pediam urgência na fuga. Eles se apressaram mal as labaredas desceram do céu e o incêndio começou.

Na correria, ela começou a se lembrar de como a sua vida tinha sido boa até aquele dia e contou para uma das criadas sobre um pássaro maravilhoso que teve quando menina, uma ave de peito amarelo, o cantor de toda manhã. Contou também que uma vez ganhou de presente de um admirador um anel de ouro com uma pedra brilhante em cima, mas o perdeu durante uma festa e nunca mais o achou, e que até aquele data sentia falta dele. Que havia uma figueira bem ao lado da casa e que era uma delícia ficar ao pé dela nos dias de calor, mas uma noite o tronco se encheu de taturana e secou. Tudo isso contou a mulher de Lot à criada que corria ao seu lado fugindo do fogo e da ira divina, e ela queria contar também sobre algo mais, talvez um amor nascido entre as paredes da casa no tempo da sua juventude, quando Lot ainda não tinha sido eleito por seu pai para ser seu marido, o marido que é sempre mais velho do que a esposa, parecendo quase o avô da esposa, tão velho ele, tão jovem ela, ou sobre o beijo que não deu quando era pouco mais do que uma menina, e sobre o instante antes do beijo não dado, aquele instante em que o coração quase para e o ar não consegue encher o peito,

mas se calou, e seus olhos ganharam a cor sombreada das tâmaras e a tristeza das tâmaras quando ainda não é o tempo da colheita. Teve consciência de que uma vida inteira se apagaria por ordem da voz divina e desconhecida, e veio a saudade, e ela quis dar o último adeus a seu passado e ao tempo vivido.

Olhou para trás.

A mulher de Lot, essa mulher sem nome e sem rosto, pois ninguém nunca perguntou qual era a sua graça, e ninguém nunca pronunciou nem escreveu o seu nome, e ninguém nunca pintou o seu rosto num retrato, a mulher de Lot, a desconhecida, ficou imóvel, a mão no ar, o aceno cristalizado, o adeus que nunca foi correspondido pela cidade em chamas. Todos viram quando ela se transformou numa pedra translúcida como alabastro, uma estátua de líquida transparência e ausente de toda cor. Ao tocá-la, perceberam que sua pele estava coberta de grãos de sal, esfarinhada como pó. Havia um sorriso em sua boca petrificada. Na tâmara de seus olhos, a memória para sempre gravada, imutável pelos séculos afora.

 




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15 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos estátua, fogo, Lot, mulher, olhos, sal, tâmara

               
              
            
                

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