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1 de outubro de 2017

Oremos por nossas cidades

Primeiro levaram embora os bancos com as pombas e os velhinhos, junto com a fonte do canteiro central e os balanços coloridos do parquinho. Alguns dias depois vieram os homens dos caminhões e derrubaram as árvores, os postes de iluminação de estilo barroco e as duas paradas de ônibus, uma em cada lateral da praça. Diziam todos que isso era o resultado da crise econômica que estava destruindo as cidades e o país, e ninguém contestava, talvez por medo de que fosse verdade. As barracas dos camelôs, os carrinhos de pipoca e algodão doce e os vendedores de balões em forma de bichos sumiram na Semana Santa. Da avenida lateral foram retirados os cafés, as butiques e os salões de beleza e, em menos de seis meses, não havia mais consultas médicas, escritórios, agências bancárias, padarias e postos policiais. Antes larga e movimentada, a via se transformou numa rua de mão única, acanhada e triste, com só três esquinas e um mímico nostálgico, metade artista, metade mendigo, que ali perambula implorando atenção e uma moeda.

Hoje não sobrou nem rastro da torre da igreja ou da escadaria do teatro, onde os mais jovens costumavam se reunir nas noites de calor — tiveram que emigrar. E amanhã, caso não façamos nada, irão trocar nossa fábrica de sonhos por um parque deserto e sem nenhuma árvore. Continuam dizendo que é a crise econômica. Eles dizem, argumentam, justificam. Nós ouvimos.

Ontem, no outro lado da cidade, abriram as portas da nova piscina climatizada, necessária porque, estava previsto, este ano o verão será insuportável.

 




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1 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cidade, crise econômica, praça

               
              
            
                

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