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9 de janeiro de 2019

Orfeu e Eurídice

Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até que seus olhos ficaram secos. Vendo que o pranto tinha desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa que amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no fundo das trevas. Cantou o seu amor com todas as canções que conhecia, de joelhos diante do infinito, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu.

— Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, cante uma canção. Nenhuma canção, jamais uma nota poderá sair de sua garganta enquanto houver um suspiro de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

Orfeu aceitou a condição e o casal começou sua difícil jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente e ela seguindo seus passos. Enquanto andavam, e já próximos da saída, o músico se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam aos que as ouviam. Lembrou-se dos aplausos e sentiu saudade deles. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás. Nos lábios um sorriso pedindo desculpas, Orfeu olhou para Eurídice.

 




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