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7 de julho de 2018

Orquestra de senhoritas

Manuela, Devanir, Maria Pia, Mercedes. Sax, oboé, fagote e piano. Elisa, Jurema, Alcina, Maria Gorete. Violoncelo, harpa, flauta, xilofone. Todas em seu lugar, ou quase. Marília, da percussão, chegou esbaforida, o olho roxo. Cochichou para Darlene, do clarinete, caí da escada. Darlene olhou com pena para a colega e pensou agora o nome do Josias é escada, mas não disse nada.

Eram loiras tingidas, ruivas tingidas, uma ou outra com os cabelos em grisalho natural. No conservatório ficaram amigas de furar o dedo e fazer um pacto. Uma é o ombro da outra, poucas se casaram, só Marília continua com homem fixo e o olho roxo, semana sim, semana não. É uma orquestra de senhoritas, embora os sulcos nos rostos mostrem o contrário.

Já pisaram em teatros municipais e salas de concerto, com os mármores e os bronzes por todo lado, poltronas de veludo e cortinas que se abriam no horário combinado. Ganharam aplausos, mas isso foi nos dias alegres. Hoje dão expediente no palco descolorido do restaurante San Remo, entre copos de cerveja, conversas de bêbados e garçons que assoviam enquanto servem. De vez em quando ganham uns trocados a mais como choronas em velórios.

Dona Suzana, a maestrina, solteirona há mais tempo do que todas, coque no alto da cabeça, chega e anuncia com voz anasalada hoje vamos tocar o repertório de boleros. Quero mais do que concentração total, meninas, quero entrega, devoção, paixão.

E assim foi. Tocaram com esmero, caprichosas como as rosas do deserto. Quem as visse assim, mais que as ouvisse, bonecas movimentando os braços e extraindo sons de seus instrumentos, todas de tristíssima figura, deveria se ajoelhar em adoração ao sublime. Mas ninguém as enxergava, eram só um som enchendo o ambiente.

Tocaram todos os boleros que conheciam. Noite pelo meio, encerraram o expediente. Ninguém aplaudiu, elas já estavam acostumadas. Dona Suzana saiu do palco primeiro, as outras a seguiram em silêncio. Darlene olhou para Marília e aconselhou cuide desse olho. Ou bote aquela escada abaixo, tanta queda, tanto olho roxo, não vale a pena.

Amanhã tocarão valsas. Um dia qualquer, não muito distante de hoje, sairão do palco para não mais voltar. Com os instrumentos debaixo do braço, tomarão o primeiro trem para o esquecimento.

 




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