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1 de setembro de 2015

Os afetos esgarçados

amor esgarçado2Sozinho no escritório. Lá fora, breu. Cidade em silêncio. Ruas secas e desertas. Ar parado. Frio. Sino da igreja próxima dali: duas badaladas. Na garrafa, café velho. Tela iluminada do computador. Trabalho atrasado. Pane. Tela azul. Ódio da tecnologia. Murro no teclado. Som do telefone.

– Agora não.

Desliga. Aflito. Control + Alt + Del: nada! Telefone, outra vez.

– Não posso. Não devo. Trabalho pra fazer.

Do outro lado, risinho sedutor. Insiste. Computador desligado. Luz apagada. Elevador. Térreo. Partida no carro. Acelera. Chega. Sobe. Porta aberta.

– Veio rápido.

– Sem trânsito a esta hora.

Roupa jogada no chão. Beijos. Urgência. Ela pede, já em posição, olho no olho dele: na frente, mas por trás. Cachorrinho. Cabelos – crina – puxados. Égua. Garanhão. Gritos. Sussurros. Calmaria. Cigarro compartilhado.

– Preciso ir.

– Volte amanhã.

– Se der. Não prometo.

Rua vazia, ar fresco. Respira fundo. Lá longe, na igreja: quatro badaladas. Consciência pesada. Coração apertado. Remorso. Arranca com velocidade. Chega. Estaciona o carro na garagem. Entra na casa. Silêncio. Quarto às escuras. Na cama, roupa e tudo.

– Dia difícil?

– Muito trabalho. Pane no computador. Estou exausto. Morto.

Lágrimas sentidas. Ele não vê. Sono profundo. Ela contabiliza: segunda vez, só nesta semana. Perdeu a conta de quantas no mês. Não vai abrir mão da casa e da guarda dos filhos. Ele que se dane.

 




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