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31 de julho de 2017

Os cactos

Quando a chuva desistiu de cair, secaram os rios, os lagos e as lágrimas. O sol nascia e se punha todos os dias, na linha reta entre as montanhas, alheio à secura de tudo. Os charcos viraram barro e toda a terra ao redor de nós se transformou em pedra rachada e estéril. A sede reinava.

Somente os cactos, exercendo sua independência e sua capacidade de produzir secretamente os sucos de que necessitam para viver, pairam soberanos na paisagem de deserto.

Algum dia, não muito distante de hoje, nós iremos a eles como se vai à beira dum precipício tendo uma manada de búfalos nos calcanhares. E, apesar dos espinhos, meteremos nossos dentes e lábios em suas carnes e sugaremos a água que eles escondem nas veias. Será nesse momento que o veneno que eles guardam há séculos acabará com tudo o que se move sobre a superfície.

O mundo será, afinal, dos cactos.

 




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31 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos água, cactos, chuva, lágrimas, sede

               
              
            
                

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